Coloquei este título no trabalho, “A TV e a Criança”, mas gostaria de falar da influência não só da TV, como também dos computadores, dos vídeogames, das “Lan Houses”, da Internet, dos jogos virtuais, enfim das crianças “plugadas” na era eletrônica.
Quais serão as conseqüências de tudo isto nas gerações que estão por vir? Será que o cérebro humano tolera esta sobrecarga de estímulos?
E do ponto de vista emocional, como é que ficam os relacionamentos humanos?
Devido às grandes cidades em que vivemos, à falta de segurança e às dificuldades econômicas vemos, cada vez mais, crianças morando em apartamentos muito pequenos, onde as únicas atividades são: assistir TV, jogar videogames ou navegar na Internet.
Em primeiro lugar vamos falar da TV. É claro que ela nos mantém informados, que hoje em todos os lares há pelo menos um aparelho de TV e que isto, sem dúvida, é um avanço tecnológico imensurável. Mas... e quanto às crianças?
Do ponto de vista emocional, poderíamos dizer que a atitude das crianças vendo TV é absolutamente passiva. A criança levanta da cama e vai para a TV. Não lhe é exigido nenhum trabalho de criatividade para evitar a monotonia, ela não precisa pensar.
Existem pessoas que não suportam estar em silêncio, e então ao entrar em casa, a primeira coisa que fazem é ligar a TV. É difícil às vezes, escutar-se a si mesmo ou escutar o que nossos entes queridos têm para nos dizer.
A TV serve muitas vezes para não deixar pensar, para “distrair”. Pode servir como um refúgio psíquico, (John Steiner), ou seja, uma área de relativa tranqüilidade contra as tensões, quando qualquer contato com o outro é visto como algo ameaçador. A televisão, a internet, enfim o mundo virtual propicia uma dose excessiva e indiscriminada desse tipo de refúgio que pode prejudicar o desenvolvimento e o crescimento, uma vez que representa um obstáculo ao contato humano que fica então totalmente prejudicado quando as pessoas fazem até as refeições diante da TV.
Visualizemos uma criança da época de antes da TV. Se ela quisesse brincar, era necessário ir chamar seus amiguinhos da rua, inventar brincadeiras como jogar bola, subir em árvores, pular amarelinha, polícia e ladrão, brincar de bolinha de búrico, bets, brincadeiras de roda, que proporcionavam acima de tudo, contato humano, relacionamento, lidar com as perdas e os ganhos, etc. E se isto não fosse possível ela começava desde cedo a agüentar a frustração de ficar só, e talvez pegasse um livro para ler ou tivesse que inventar algo.
Reparem na sutiliza disso. Imaginem essa situação se repetindo cotidianamente, milhares de vezes. A tolerância à frustração se tornava parte do dia a dia e da personalidade das pessoas. Hoje em dia a TV proporciona companhia imediata. Não é mais preciso chamar o amiguinho da rua, e também não é preciso criar nada, as coisas já vêm prontas.
Devemos ter em mente que a semente do pensamento é a frustração, e o relacionamento com a mãe, ou com figuras que fazem o papel da mãe e que interpretam os sentimentos, que conversam com a criança, dando acolhimento ou rêverie.
Como diz Bion, uma criança capaz de tolerar frustração se permite ter um senso de realidade, ser dominada pelo princípio da realidade. Se a sua intolerância à frustração vai além de certo grau, os mecanismos onipotentes entram em ação, especialmente a identificação projetiva.
Outro autor que trata do tema da “Capacidade de estar só”, Winnicott, diz que muito se tem falado do medo de estar só, ou do desejo de estar só, mas que na realidade é necessário ter capacidade para estar só. Estar só é estar acompanhado de si mesmo, e de seus bons objetos internalizados. Ou seja, é preciso ter bons objetos internalizados para se poder estar só. A relação do indivíduo com seus objetos internos se for boa, lhe dá confiança quanto ao presente e ao futuro, e lhe dá auto-suficiência para viver de modo que a pessoa se sinta capaz de descansar contente, mesmo na ausência de objetos ou estímulos externos.
Com a era eletrônica, porém, há uma inundação de imagens, a companhia é mecânica, não provoca frustração, não existe relacionamento.
Isto pode gerar inúmeros problemas, entre eles a dificuldade que as crianças apresentam em acompanhar o ritmo da escola, aonde as coisas não vêm prontas, é preciso fazer as lições, pesquisar. Inúmeras crianças não conseguem fazer isso, não toleram as dificuldades dessa espécie, ou seja, o tolerar esperar.
Além disso, temos visto cada vez mais problemas de coordenação motora, tanto ampla como fina, crianças com problemas para escrever.
Não podemos deixar de sinalizar o lixo dos programas apresentados pela televisão que chamam muito a atenção das crianças. É raro vermos um programa de alta qualidade dirigido às crianças, que enfatizem a literatura infantil, conhecimentos gerais e que forneçam bons modelos de família, moralidade e ética, de forma original e motivadora. Segundo a revista Veja uma ONG chamada Mediativa e o Instituto de Pesquisa Multifocus estudam a qualidade da programação Infanto-Juvenil da televisão brasileira. Dessa pesquisa resultou uma tábua de 10 mandamentos do que a televisão deveria proporcionar, segundo os pais.
No entanto, foi visto que os programas se ocupam dos mandamentos tidos como secundários e não dos essenciais. Há muito mais programas que “tem fantasia”, “são atraentes” e “não são apelativos” do que aqueles que “confirmam valores”, “incentivam a auto-estima” e “preparam para a vida”.
Outro dado importante obtido pela pesquisa é que 40% das crianças ficam na frente da televisão diariamente até as 23 horas e esta proporção cresce à medida que a idade aumenta. Mas não existe programação dirigida a esta faixa etária no horário noturno.
Qual é a programação do horário noturno? Mesmo nos telejornais, quais são as notícias privilegiadas? Geralmente são as de violência.
Como diz Carl Sagan em “O Mundo assombrado pelos Demônios” um extraterrestre recém-chegado a Terra, examinando o que apresentamos à nossas crianças na televisão, no rádio, no cinema, histórias em quadrinho, revista, etc. poderia facilmente concluir que fazemos questão de lhes ensinar assassinatos, estupros, crueldades, superstições, credulidade e consumismo. Sem falar na corrupção! Continuamos a seguir esse padrão, e pelas constantes repetições muitas das crianças acabam aprendendo essas coisas.
“Que tipo de sociedade não poderíamos criar se em vez disso, lhes incutíssemos a ciência e um sentimento de esperança”?
Segundo pesquisa, os programas infantis americanos, das manhãs de sábado, apresentam uma média de 25 atos de violência por hora. Se a TV provoca violência ou se crianças violentas preferem assistir programas violentos, não sabemos. Mas no mínimo, isso as torna insensíveis à agressão e à crueldade gratuita E o que estará sendo implantado no cérebro de uma criança que assiste a uns 100 mil atos de violência antes de terminar a escola primária?
Se pensarmos na importância das identificações de uma criança e na importância dos ídolos, teremos que pensar nos modelos que a televisão oferece assim como nas mensagens subliminares que são passadas a cada minuto.
E pensando na sociedade de consumo, podemos afirmar que a mídia não tem interesse em pessoas bem estruturadas, com valores definidos e que não se deixam influenciar tão facilmente.
Quais são as noções de valores que a televisão nos oferece?
Outra atividade cada vez mais difundida são os videogames, que colocam a criança diante de uma realidade virtual. Em certa dose, pode ser muito interessante. Mas está havendo um exagero, e as crianças e mesmo adultos estão se tornando viciados neste tipo de atividade, chegando a substituir a realidade pelo mundo virtual.
Esses jogos estimulam a competição e a agressividade. É matar ou morrer! As crianças se tornam terroristas! Brincam com armas de fogo e matam virtualmente. A adrenalina corre solta por suas veias.
A Internet não tem censura! Não tem limites!
A Internet cresceu 180% nos últimos quatro anos!
Crianças podem ver cenas de sexo e todas as perversidades inimagináveis apertando apenas um botão e do seu próprio quarto.
A impulsividade, a competição, a agressividade, a sexualidade, a velocidade são atrações tanto da Internet como das casas de jogos eletrônicos que ganham milhares de dólares provocando adrenalina nas pessoas de todas as idades.
E depois? Como é que fica a realidade sem adrenalina?
A moda agora é festejar aniversário de criança nas “Lan Houses” onde as crianças trocam as brincadeiras e os doces, pelos computadores.
Crianças têm televisão, DVD, computador no quarto e cada uma tem o seu.
Será que as drogas não têm a ver com isso? Adrenalina a qualquer preço! Adultos e adolescentes viciados em adrenalina!
Já tive a oportunidade de ver dois irmãos, que jogavam xadrez através de computadores, cada um do seu próprio quarto, na mesma casa. Onde é que fica o contato humano?
Será que não está havendo uma “desumanização”, uma vez que sem a possibilidade de desenvolver as habilidades próprias da natureza humana, ou seja, os relacionamentos, a criança tende a preencher esse vazio, com emoções violentas como cenas chocantes, velocidade, etc.
Será que o aumento da violência não tem a ver com isto?
Tenho recebido no consultório crianças e adolescentes tímidos que só conseguem se relacionar através da Internet. Não têm amigos na realidade, mas estão cheios de amigos e mesmo namorados virtuais. Nas amizades virtuais, a pessoa não tem que se defrontar com a realidade, e principalmente com frustrações.
Existe uma influência grande de seriados japoneses, onde os adolescentes ou mesmo as crianças têm super poderes e, portanto, não têm que se defrontar com as suas dificuldades e impotências da vida real.
É claro que estamos diante de uma geração super inteligente, porém, muitas vezes, mais agitada e com problemas de atenção e concentração nas atividades escolares.
Através da Internet, uma criança encontra num click tudo que a humanidade levou milhares de anos para descobrir.
O volume de informações é excessivo, impossível de ser digerido, de ser organizado. Como conseqüência, tem-se visto crianças ligadas demais, hiperativas, com dificuldade de concentração, de organização e de relacionamento, por vezes agressivas demais. Crianças que não conseguem fazer amigos, que não acompanham a escola, repetem o ano, não conseguem ler e escrever.
É importante que os pais estejam atentos para o que os seus filhos estão vendo na TV ou na Internet e quanto tempo se demoram nessas atividades.
Não se pode proibir os filhos de assistir determinados programas em moda na TV. O que se pode fazer é comentar os programas com as crianças, fazer os filhos pensarem sobre os temas, formularem questões, narrar o que viram, enfim aprender a ter uma atitude crítica.
Organizar os horários, dosar esse tipo de atividade é fundamental. Encarar a TV como uma forma de laser. Ter prazer durante certo tempo no dia não faz mal, porém passar todas as horas livres neste tipo de laser, isso sim pode ser muito prejudicial.
Podemos fazer um círculo e preencher com o número de horas que a criança gasta com escola, brincadeiras, televisão, etc. Assim teremos um quadro que nos dará uma noção se ela não está se expondo demais a esse tipo de influência.
As rédeas ainda estão nas mãos dos pais!
Bibliografia:
- John Steiner - Refúgios Psíquicos – Imago – 1997
- W. R. Bion – Aprender com a Experiência
- D. W. Winnicott – O Ambiente e os Processos de Maturação – Artes Médicas - 1982.
- Carl Sagan – O Mundo Assombrado pelos Demônios – Companhia das Letras - 2004
- Revista Veja – 28 de julho de 2004. .
Resumo:
A autora tenta com este trabalho, investigar qual seria a influência da era eletrônica, televisão, computador, vídeos games, enfim, do excesso de estímulos, no processo de evolução das novas gerações, na capacidade de suportar frustrações,de estar só consigo mesmo, de pensar,ou de se relacionar com os outros, na socialização e até na violência da sociedade atual.
Palavras chaves: mundo virtual, relacionamento, violência.
* Este trabalho foi apresentado como Tema Livre no Terceiro Encontro das Regionais da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, realizado em Santos no dia 13 de agosto de 2010.
**Edna Wallbach – é psicóloga e trabalha com crianças há 37 anos. Psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e atual presidente do Núcleo Psicanalítico de Curitiba.